MANIFESTO => Superação do Racismo e a Intolerância religiosa


Como negras e negros oriundos de diversas organizações cristãs, levantamos as nossas vozes e conclamamos as igrejas evangélicas brasileiras que busquem a superação do racismo e da intolerância religiosa. É indispensável que os nossos púlpitos e sermões estejam isentos de qualquer conteúdo racista ou de intolerância. Mais do que isso. É indispensável que reflitam, em sua plenitude, as contribuições dos diversos grupos étnicos para a formação da nação e da cultura brasileira. Ignorar essas contribuições ou não lhes dar o devido reconhecimento é também uma forma de discriminação racial e negação do evangelho de Jesus Cristo. Acreditamos que a Igreja que superará o racismo e a intolerância há de ser uma Igreja que vive, sobretudo, o evangelho de Cristo. Não há preconceito racial e intolerância que resista à luz do evangelho, que promove o respeito às diferenças culturais, que ajuda e fortalece os corações e mentes de todos os brasileiros no ideal da igualdade de oportunidades.

Essas mesmas igrejas hoje, omissas e até mesmo intolerantes, não podem esquecer que as Igrejas Evangélicas já foram perseguidas pelo ímpeto da intolerância.

Quando o Rev. Robert Kalley, em1858, fundou a Igreja Evangélica Fluminense, no Rio de Janeiro, sofreu perseguições: nos locais de reuniões eram atiradas pedras, excrementos; dirigiam-se insultos e ameaças, tudo isso com a autorização e participação da polícia local;

Em 1861, os protestantes não tinham seus casamentos legalizados. Os protestantes também não podiam registrar seus filhos, nem enterrar seus mortos já que só a Igreja Católica tinha essa prerrogativa;

1873 em Recife: Os cultos e reuniões congregacionais foram interrompidos pelas autoridades, ficando interditados por vários meses; a policia impede o Dr. Kalley de realizar cultos e celebrar um casamento, permitindo que insultem os protestantes e os apedrejem;

1877 em Jaú, São Paulo: o Rev. Dagama e um propagandista foram ameaçados e acusados de exercício público de culto;

1880, em Caldas, hoje, Parreiras, Minas Gerais: o Rev. Chamberlain encontrava-se na Cidade ao mesmo tempo em que o bispo de São Paulo. Foi o bastante para que grupos fanáticos tomassem as suas prédicas como um desafio ao bispo e apedrejassem a sua casa.

1883, na Bahia: a multidão amotinada, e a policia com ela, impediram que se realizasse uma cerimônia de batismo na praia, alegando as autoridades tratar-se de exercício público de culto e provocações da desordem;

1883, em São Bernardo, São Paulo: o vigário da aldeia impediu que fosse enterrado no cemitério local o corpo de um menino, filho de presbiteriano;

1928, um incêndio na casa da irmã Maria do Carmo ( Assembléia de Deus ) faz com que o local de culto seja transferido para uma localidade por nome Canoa, em Paulista;

Os evangélicos eram chamados de bodes, nova seita. Bíblias eram confiscadas e queimadas na praça das cidades. Muitos tiveram suas casas incendiadas criminosamente, seus bens extraviados, suas vidas vilipendiadas. Esta perseguição se estende até a década de 40 e começa a diminuir na década de 60 e 70.

É imprescindível voltar a esse passado para que ele seja uma lição para o nosso presente. Hoje, os “evangélicos”, de perseguidos passam a ser perseguidores:

Agressões sofridas por parte de setores neopetencostais, usando veículo de comunicação de massa, demonizando a Umbanda e o Candomblé;

Em 2000, Iyawo é agredida, por evangélicos, em Praça Pública, no Parque Eldorado, em Santa Cruz da Serra, conforme denúncia feita através de rádio comunitária;

Os casos de intolerância se agravam. Por exemplo, o caso de Mãe Gilda que, violentamente atacada por uma igreja neopentecostal, adoeceu e em 2000 veio a falecer depois de ver sua foto publicada em uma matéria vinculando sua imagem ao charlatanismo;

No Rio, junho de 2008, um grupo de quatro jovens de uma igreja evangélica neopentecostal, invadiu e depredou dezenas de imagens de santos católicos e de Orixás em um Centro Espírita;

Diversas Casas de Umbanda e Candomblé nos morros do Alemão, Rocha Miranda, Realengo, entre outras localidades do Rio de Janeiro, encontram-se fechados por determinação do tráfico, de acordo com matéria do Jornal Extra de 17/03/08. Pasmem, por traficantes que se dizem “evangélicos”;

Iyalorixás e fiéis sofrem agressão física em cerimonial fúnebre, dentro de cemitério, por parte de setores neopetencostais;

Servidor Público é agredido verbalmente e publicamente por sua chefia imediata, fiel de religião pentecostal, por assumir sua religiosidade de matriz africana. Processo civil e administrativo, paralisados nos órgãos competentes;

Em São Paulo, um terreiro de Candomblé aberto há mais de 25 anos está lacrado e seus religiosos e adeptos proibidos de exercer a sua liberdade de culto por ordem da prefeitura, após frustrada demanda judicial, sob a alegação de mudança de zoneamento urbano e de que o som dos atabaques incomoda a vizinhança. Em flagrante desprezo ao princípio da igualdade de todos perante a lei, ao mesmo tempo, pelo menos três igrejas que circundam a região estão funcionando normalmente com suas caixas de som distribuídas pelos postes da localidade;

Entre outros diversos casos que temos notícias que vão da demonização à agressões, da depredação à, até mesmo, violência física contra as religiões afro- brasileiras.

A superação da intolerância religiosa e do racismo, ainda presente em nossa sociedade e igrejas, é um imperativo, uma necessidade e Testemunho Cristão de primeira grandeza. Parte das nossas igrejas sabem bem disso porque foram perseguidas e sofreram. Precisamos resgatar esse nosso passado, aprender com ele, superar o racismo e a intolerância do presente, vivendo o evangelho de Cristo.

Brasil, 30 de Novembro de 2008

Assinam o manifesto:

Sociedade Cultural Missões Quilombo
Fórum de Afrodescendentes Evangélicos
Grupo Gestor Afrokut
Comissão Ecumênica Nacional de Combate ao Racismo
ANNEB – Aliança de Negros e Negras Evangélicos Brasileiros
Fórum de Lideranças Negras Evangélicas
União de Negros Pela Igualdade – UNEGRO/MG
Movimento Afro-esmeraldense – MAE
Assembléia de Deus do Sobral - Sulacap -RJ
ACQUILERJ - Associação Estadual dos Remanescentes de Quilombos do Estado do Rio de Janeiro/Campinho da Independência/Paraty-RJ
Movimento de Ação e Reflexão Martin Luther king. Jr
Hernani Francisco da Silva – Empreendedor Social
Marco Davi de Oliveira – Pastor e Teólogo
Anderson Henrique – Missionário
Flávio Conrado - Doutor em Antropologia Cultural
Clever Alves Machado – Teólogo, Jornalista, Pedagogo
Editon Dias da Silva – Pastor
Ana Paula Maria Soares dos Santos - Igreja Batista - militante do movimento negro
Cleusa Caldeira - pastora de Igreja Presbiteriana Independente do Brasil em Curitiba
Cyrene Paparotti Gounin – Professora e Cantora Lírica
Diná da Silva Branchini - metodista, cientista da religião
Rev Marcos Amaral - Psicólogo, professor e pastor da Igreja Presbiteriana de Jacarepagua
Eliete Gutierrez da Silva - Enfermeira
João Carlos Araújo - Pastor, Teólogo e pedagogo
Deuma Silva - professora, membro da PIB em Cruz das Almas - BA
Manoel de Souza Miranda - Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil - IPU - Vitória-ES

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Diversidade Religiosa e Direitos Humanos

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